Gênero 1: Mulheres

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E finalmente o rádio marcou um gol contra o futebol e agora o placar está 1 x 2. A maioria das/os nossas/os leitoras/es acharam pior a “vida de gado” das rádios comunitárias e livres no Brasil do que os abusos legais em nome da Copa (que não são poucos também). A partida de hoje, sem dúvida, é um encontro duro já que estamos falando do gênero forte: as mulheres e a sua participação no rádio e no futebol. O ano de 1863 é um marco quando o assunto é gênero e esporte. Nessa época foram definidas as primeiras regras internacionais de futebol na Inglaterra, possibilitando também o surgimento dos primeiros times de futebol femininos. E não foi só pela Inglaterra que as mulheres despontaram, desde 1910 são documentadas transmissões de rádios amadoras nos Estados Unidos.Mas e hoje? Como se dá a participação da mulher neste esporte?

A nossa autora Miriam Meda nos fala sobre a invisibilidade da mulher nos esportes e principalmente no futebol, quando se trata da mídia. A radialista e pesquisadora ainda aponta que as rádios comunitárias não são uma exceção nesse mar de ignorância. Por outro lado, Celia Rodrigues, representante nacional da Rede das Mulheres da AMARC Brasil, apresenta uma pequena pesquisa com mulheres do Nordeste Brasileiro, na qual demonstra a ampla oposição contra a Copa de 2014. Celia ainda explica o motivo da euforia frente ao megaevento entre as mulheres da região é quase zero.

Como sempre, são vocês que vão decidir o resultado desta partida! Vote!

O que não é visto, não existe

por Miriam Meda

“O futebol feminino, nem é futebol e nem feminino.” Com este tipo de incentivo vindo das arquibancadas, a jogadora Sheila Jimenez teve que marcar gols. Sheila era uma jogadora semi-profissional do futebol espanhol, que deixou os gramados para se dedicar a área de informática e telecomunicações num escritório em Madrid.

Eu também me lembro durante os campeonatos que cada vez que uma companheira marcava um gol não faltavam homens gritando: “Faça um Guaraná “. Para quem não se lembra, o Guaraná é um refrigerante que em 2002 fez um comercial de extremo mau gosto. A empresa veiculou um anúncio em que uma loira marcava um gol e comemorava a marcação subindo a camisa e mostrando os seios. Na Espanha, foi uma das publicidades mais denunciadas por ser sexista.

Mas por que ainda existe essa visão do futebol feminino? Não só no futebol, mas no esporte em geral. Mari Carmen Rodriguez, diretora e apresentadora do programa de rádio Féminas, um espaço inteiramente dedicado ao futebol feminino, da Rádio Ritmo Getafe de Madrid, na Espanha, indigna-se ao lembrar do descaso da imprensa em noticiar a conquista da nadadora espanhola Mireia Belmonte. A atleta ganhou quatro medalhas de ouro e bateu um novo recorde no campeonato europeu de natação e a mídia não deu, sequer, uma nota de rodapé.

Que o futebol move massas, todos já sabem, mas o grande problema na sociedade de hoje é que aquilo que não aparece na mídia diretamente, não existe. Infelizmente, o caso de Mireia não é o único. Como o esporte das mulheres nunca é notícia, de fato não existe. Você pode estar perguntando se para os veículos de comunicação é de fato rentável o suficiente dar a mesma visibilidade do futebol masculino para o feminino. É uma pergunta legítima, mas deixando de lado os termos econômicos, devemos nos perguntar o que acontece com as televisões e rádios públicas, cujo benefício mede-se no serviço público e não no lucro? E então, o que acontece com as rádios e televisões comunitárias, cuja missão declarada é precisamente dar voz aos que não têm voz ?

Analisando os programas de rádio dedicados ao esporte feminino na Espanha, observamos que quase podemos contar nos dedos de uma mão aqueles em que de fato abrem um espaço para retratar a mulher no esporte. Contamos com o Solo Deporte Femenino (SDF) realizado pela Universidade Europeia de Madrid, em colaboração com o Conselho de Esportes; Aragón Deporte en Red. En femenino, da Rádio Pública de Aragão, e um quadro para as mulheres no programa Al primer toque da Onda Cero . Se nos concentrarmos nas rádios livres e comunitárias espanholas, podemos incluir Féminas (já mencionado) e alguns programas de esportes como Oye, ¿cómo van? da Rádio Cegonha e El Cronómetro, de Xétar FM.

Como dissemos antes, “o que não aparece na mídia, não existe.” E como podemos ver, esporte e futebol das mulheres não aparecem nos meios públicos de comunicação, nos privados comerciais e nem nos meios de comunicação comunitários. Temos que repensar o tipo de comunicação que fazemos a partir da liberdade e de fato sermos livres nas rádios alternativas e comunitárias sem copiar modelos hegemônicos que pregam a exclusão por conta do gênero. Precisamos criar os nossos próprios programas de esportes, não só do futebol feminino, mas de outras modalidades esportivas, em que todas as pessoas, independentemente do sexo, sejam os protagonistas.

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Choque de Realidades

por Célia Rodrigues

Olá pessoal do País da Copa! Segundo a FIFA, o futebol passa a milhões de mulheres autoconfiança, bem-estar, um ambiente social e a libertação de normas sociais retrógradas. Bom, mas há quem afirme que esses benefícios só funcionam para as pouquíssimas mulheres que praticam o futebol, certo ou errado?

Falar de futebol e gênero tem muito a ver conosco sim! Imaginemos uma torcida só de mulheres protestando dentro do estádio lotado em um jogo da seleção brasileira e reivindicando melhores condições de saúde, de salários, de segurança pública e de creches para @s filh@s!

Do outro lado, uma torcida mista xingando o juiz e auxiliares, se esgoelando, e na expectativa pelo gol que supostamente virá de algum lado!

Perguntamos: onde está a diferença das duas cenas?

Bom, depende do estado de reação e de choque de realidade que uma dessas torcidas vivencia.

Fizemos uma breve enquete entre mulheres, donas de casa, estudantes e movimentos de mulheres da Região do Cariri – Centro Sul do estado do Ceará. Foram duas perguntas:

01 – O que vocês acham da Copa do Mundo no Brasil?

02 – Vocês gostam e entendem de futebol?

E os resultados foram: 73% das donas de casa disseram só entenderem que a Copa no Brasil gastou muito dinheiro, mas não avaliam as consequências. Quanto a entender e gostar de futebol, 46% gostam de assistir a seleção na TV, mas só entendem quando é gol!

Entre o grupo de estudantes, a variação foi interessante: 25% curtem a Copa, mas não descartam a indignação pelos gastos no evento. 58% não gostam de futebol, não se interessam pelo assunto, nem vão assistir na TV. 42% curtem futebol, têm seus times prediletos, mas são contra a Copa no Brasil.

Já para as mulheres ativistas, a coisa muda de figura. 81% delas não aprovam a Copa do Mundo no país e revoltam-se com a política econômica defasada. Elas se articulam contra a deficiência na saúde, na educação, na segurança e nas políticas públicas em prol das brasileiras. 14% dizem não gostar de assistir jogos na TV, e 5% dizem gostar e torcer pelos seus times.

Comparando com o nosso exemplo anterior, percebemos que a grande maioria das brasileiras da nossa região cearense, nordestina, estão antenadas com a realidade gritante da nossa nação! Elas vivenciam um ‘choque de realidade’ ignorado por muit@s!

OBS: @ corresponde masculino/feminino

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