Gênero 2: gays, lésbicas, bissexuais e transgênero no rádio e no futebol

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O rádio arrasou de novo! O abuso do futebol como palco político não teve força suficiente para vencer a postura autoritário dos Estados frente a expressão nas rádios livres e comunitárias. Agora o rádio leva uma vantagem de 3 a 2 no placar antidemocrático.

A partida desta semana trata de adversários comuns ao futebol e a radiodifusão democrática: a homofobia e a valorização da heterossexualidade. Estudos apontam que um em cada onze jogadores ou jogadoras de futebol são homossexuais. Porém, até hoje no futebol os atletas profissionais somente assumem a sua orientação sexual após encerrar a carreira. E nas rádios? Será que lá também imperam a testosterona e o regime tolerância zero?

O rádio não é um paraíso da diversidade de gênero, acredita Markus Plate, jornalista radiofônico na ONG Voces Nuestras em Costa Rica. E depois de conhecer dúzias de rádios comunitárias na Europa e na América Latina constata que elas não escapam dos padrões heterossexuais pré-estabelecidos.

A Pulsar Brasil, agência informativa da AMARC – Brasil, faz um panorama de como universo do futebol, principalmente o masculino, não aceita a diversidade sexual. Num meio que reúne uma maioria esmagadora de homens, seja no comando dos times, os próprios atletas e também os torcedores, um simples debate sobre homofobia raramente aparece. Normalmente, jogadores que não se assumem homossexuais, mas que geram desconfiança por algum motivo são hostilizados dentro e fora do campo, por sua própria torcida e, claro, a rival principalmente.

Então, quem merece vencer esta partida? Vocês decidem, votem agora!

O caminho longo e gay pela comunidade

por Markus Plate

Os meios de comunicação são um pouco como times de futebol. Me digam, por favor, um craque de futebol que tinha saído do armário? Thomas Hitzelsperger o ex-jogador da Alemanha, certo. Ele com o seu outing virou tema da imprensa mundial, coisa que nunca conseguiu durante a sua carreira ativa. E agora, me digam mais um famoso jornalista gay. Certo, Anderson Cooper, nosso inimigo mais querido da CNN, com a sua fisionomia séria e seus lábios sempre malandros. A comunidade gay estadunidense sempre suspeitou dele como um possível candidato nas suas redes sociais de fofoca, ainda que (ou sobretudo porque) o Sr. Cooper goste de se apresentar bastante macho e bastante neoliberal. Porém, o que nos dizem esses casos particulares sobre a porcentagem dos gays no futebol e na mídia? Estatisticamente falando, nada.

Talvez ajude compartilhar um pouco da experiência pessoal. Eu venho da bacia do Ruhr, uma região com muitas indústrias, também chamada da cozinha de ferro da Alemanha – e por esse fato, é uma das regiões do futebol no país com clubes conhecidos mundialmente: Borussia Dortmund, Schalke 04, Vfl Bochum. Lógico que eu também jogava futebol desde pequeno – em comparação com os parceiros e adversários canhotos quase brasileiro: eu fui hábil com a bola e mais rápido que os demais. Achei gatos vários dos jogadores nos times adversários. Achei, já que estamos aqui entre os homens, igual num seminário, na cadeia ou grupos de choque, que deveria rolar algo. Mas, rapidamente aprendi que o mais gay que um jogador de futebol tem a oferecer é a sua homofobia. Durante muito tempo, as únicas exceções eram grupos ou associações gays de esporte.

Vou pular de times locais e alternativos de futebol à mídia local e alternativa – e mais uma suposição: Entre os jornalistas a porcentagem de gays deveria ser ainda muito maior do que no meio de outras profissões. Presença na mídia, uma grande variedade temática, muitas viagens, muito estresse, uma grande responsabilidade pessoal – um trabalho feito para o homem gay ou a mulher lésbica. É um fato: na grande mídia eu conheço um monte de profissionais gays ou lésbicas. Apresentadores, cinegrafistas, correspondentes de jornais, fotógrafas. Ou seja, tem muito mais Anderson Coopers nesse mundo que Thomas Hitzlspergers.

Porém, como se vê esse mundo jornalístico ao nível local? Eu temo que se pareça bastante com o meu time de futebol na bacia do Ruhr. Nos últimos 15 anos eu conheci dúzias de rádios comunitárias na Europa e na América Latina. Por alguma razão, a maioria dos homens acham-me heterossexual. Por isso os colegas masculinos me incomodam sempre com a pergunta: o que eu acho de tal mulher? A minha resposta preferida é: “Talvez eu ache você mais interessante…”, já perturbou profundamente diferentes militantes que se acham sensíveis ao tema do gênero. Simplesmente não conseguem se comportar diferente a um moleque macho de um clube de futebol local.

Sem dúvida, muitos neste meio são mais civilizados. E sem dúvida, depois de sair do armário numa rádio comunitária não são desacreditados como “veado” em público. Muitas vezes até existe um interesse honesto na minha pessoa e até mesmo desenvolveram-se verdadeiras amizades. Pensando nisso, tenho que defender um pouco os homens heterossexuais das rádios comunitárias. Eles simplesmente têm falta de uma presença gay. Porque participam jornalistas lésbicas em muitos projetos, mas raramente militantes gays. E quando participam somente se lhes permitem fazer o seu programinha de arco-íris – e muitas vezes nem aspiram mais.

Mas os tempos mudam. Há tempos que nas metrópoles da América Latina e da Europa uma geração jovem da diversidade sexual lutou para sair do gueto e chegar no público. E essa luta alcançou até mesmo as rádios comunitárias. Onda em Berlím, nosso projeto de rádio dedicado aos movimentos sociais na América Latina durante muitos anos foi dominado por lésbicas e gays. E isso sem que os noss@s companheir@s heterossexuais tivessem sofrido grandes feridas mentais.

Sempre sabíamos fazer mais que somente discutir se Anderson Cooper será 360 graus gay ou não. Também sabemos filosofar sobre música punk ou juntar argumentos contra megaprojetos de mineração. Até mesmo sabemos jogar futebol. Eu, por exemplo, uma vez marquei um gol legendário – que assegurou uma vitória de 3 a 2 do meu time de punkeiros contra a rígida juventude socialista heterossexual durante a copa anual dos adolescentes na minha cidade natal. Foi a primeira vez em cinco anos que nós, os punkeiros, não tínhamos perdido um jogo.

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Sou jogador de futebol e gay

por Pulsar Brasil

‘Neymar declara ser homossexual às vésperas da Copa.’; ‘Messi é flagrado trocando carícias com outro homem num bar’. Essas manchetes são fictícias, mas e se fossem verdadeiras? Será que os dois melhores jogadores de futebol do mundo seriam menos reconhecidos se não fossem heterossexuais? Infelizmente, tudo indica que sim.

No que tange a homossexualidade nos esportes e, principalmente, no futebol, o tabu ainda é muito grande. São poucos os casos de jogadores e jogadoras que venceram a barreira do preconceito e revelaram ter uma opção sexual diferente do senso comum.

Um caso que teve muita notoriedade e, infelizmente, um fim trágico, foi o do jogador britânico Justin Fashanu. O ex-atacante de times como o Norwich e Manchester City, declarou sua homossexualidade ao tabloide The Sun, em 1990. Após revelar a sua orientação sexual, a sua carreira profissional começou a perder prestígio. Muitos ex-companheiros de equipe reagiram mal à declaração, afirmando que os gays não tinham lugar em um esporte de equipe.

Oito anos depois de revelar ao mundo ser gay, perder espaço dentro dos grandes times e sofrer uma acusação de abuso sexual por um jovem de 17 anos; Fashanu cometeu suicídio. Enforcou-se aos 37 anos. Em uma carta de despedida, o jogador negava acusações de abuso sexual nos Estados Unidos e afirmava que, por ser gay, jamais seria julgado de forma justa.

Num universo que reúne uma maioria esmagadora de homens, seja no comando dos times, os próprios atletas e também os torcedores, um simples debate sobre homofobia raramente aparece. Normalmente, jogadores que não se assumem homossexuais, mas que geram desconfiança por algum motivo, são hostilizados dentro e fora do campo, por sua própria torcida e, claro, a rival principalmente. Acredita-se que muitas vezes o medo dos danos irreparáveis à carreira faz com que especialmente os jogadores de elite não se arrisquem a revelar sua opção sexual.

Recentemente no Brasil, um caso muito menor envolvendo os jogadores Sheik e Richarlyson, gerou grande repercussão na mídia e nas redes sociais. Sheik foi hostilizado por sua própria torcida após postar uma foto em que dava um selinho em um amigo. Na legenda, o jogador ainda escreveu: “Amizade sem medo do que os preconceitos vão dizer”. A polêmica foi tão grande que o jogador se rendeu e acabou pedindo desculpas à torcida do Corinthians. Já Richarlyson sofreu o preconceito da torcida do São Paulo, mas nunca comentou sobre as dúvidas a respeito de sua opção sexual.

Já quando o assunto é o futebol feminino, observa-se que muitas mulheres tiveram coragem para colocar a boca no trombone. A equipe que melhor serve de exemplo é da Alemanha. A goleira Nadine Angerer, 32 anos, eleita em 2010 a melhor do mundo na posição, foi uma das que admitiram à imprensa de seu país a sua bissexualidade.

A notícia foi recebida com surpresa na Alemanha, onde o futebol feminino possui grande popularidade, e trouxe à tona o silêncio existente a respeito do futebol masculino.

O tema da orientação sexual ainda é polêmico nos gramados do Brasil e do mundo. Simples rumores sobre homossexualidade já causam desconforto para os jogadores, que se veem forçados a afirmar sua condição heterossexual. Até quando as escolhas sexuais, a cor e o credo ditarão juízos de valor e competência profissional?

2 comentários sobre “Gênero 2: gays, lésbicas, bissexuais e transgênero no rádio e no futebol

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