Jogadores globais – Tomadores de decisões

jogadores_globais_webComeçamos nossa série com um tema bem polêmico: os jogadores globais no futebol e no rádio. De um lado a Federação Internacional de Futebol (FIFA) e do outro a União Internacional de Telecomunicações (UIT). Conhece bem as duas organizações? Está na hora de se ligar!

Os primeiros autores a entrar em campo são Mateus Donato, mestre em sociologia e antropologia pela universidade federal do rio de janeiro. Mateus nos explica como são tomadas as decisões globais no mundo do futebol. Ele vai enfrentar ninguém menor que Rafael Diniz, radiolivrista e mestrando em ciência da computação. Rafael faz uma breve análise sobre a União Internacional de Telecomunicações (UIT).

Ora vamos! Clique para ler mais!

Como a União Internacional de Telecomunicações (UIT) interfere no que você ouve e assiste?

por Rafael Diniz

A União Internacional de Telecomunicações (UIT) foi criada em 1865 como organização para intermediar a comunicação estre as redes de telégrafo de diferentes países da Europa. O tempo passou, o rádio foi inventado e a UIT começou a normatizar e regular as ondas de rádio e telefonia em escala mundial. Foi incorporada como agência (mais antiga) da Organização das Nações Unidas (ONU), tendo 193 países filiados.

A banda hoje alocada para o rádio FM, por exemplo (88MHz – 108MHz), foi definida pela UIT. Assim como a faixa para rádio AM, TV, WIFI e telefonia celular, sendo, portanto, a mais alta instância do rádio no mundo. Fazem parte dessa organização representantes dos 193 países e aproximadamente 700 outras organizações, muitas dessas entidades são empresas e indústrias ligadas ao setor de telecomunicações.

As reuniões e conferências nas quais a UIT toma as decisões sobre novas regras e tratados que ditam o uso do rádio são realizadas a portas fechadas, sem qualquer possibilidade da participação ou acesso da sociedade civil ou de seus representantes. Somente ministros de Estado, organizações representantes da indústria e empresas do ramo das telecomunicações ‘multibiolionárias’ tomam as decisões.

Um exemplo recente foi o lobby da 3GPP e AT&T para alocar a banda dos 700MHz, hoje ocupada pelos canais de TV 51 ou 69, para a telefonia móvel, em detrimento da recepção com qualidade da TV aberta gratuita nos EUA. A plenária da UIT, de forma nada surpreendente, cedeu ao lobby das empresas de telecomunicações, abrindo caminho para o mesmo processo no Brasil. Aqui, em terras tropicais, a realocação dos 700MHz irá prejudicar muito as TVs públicas, que têm seus canais digitais alocados entre o 61 ao 69.

No caso do rádio digital, o lobby dos Estados Unidos na UIT a favor de seu padrão, o HD Radio, conseguiu barrar o padrão Digital Radio Mondiale por vários anos antes que conseguisse se tornar uma norma internacional reconhecida, claramente defendendo os interesses comerciais de empresas norte-americanas, e contrários a aceitação do único padrão de rádio digital aberto que funciona na faixa de AM e FM.

Não contente com o grande poder, a UIT vem tentando há alguns anos incorporar a governança da Internet, de forma a permitir um maior controle sobre o tráfego na rede.

Num mundo onde o rádio pode ser universal, permitindo-se mais emissores-receptores, onde o acesso dinâmico ao espectro está à disposição para seu compartilhamento entre todos e a sociedade clama por mais voz e acesso aos meios de comunicação, a UIT se mostra cada vez mais uma entidade da ONU que oprime aqueles que precisam ter acesso ao espectro radioelétrico para se comunicar.

Você acha que não tem pior? Então vote para o rádio como campeão antidemocrático!

imagem

Por trás do falso caráter democrático da FIFA

por Mateus Donato

O futebol profissional está organizado de forma centralizada, com a Federação Internacional de Futebol (FIFA) atuando como instância superior e as unidades regionais e locais posicionadas dentro dela, com uma instância de controle para cada unidade geográfica, sem a possibilidade de sobreposição ou duplicidade. No caso brasileiro, clubes se dispõe em federações estaduais, que se organizam em uma confederação nacional, que por sua vez junta-se às outras associações nacionais para formar uma confederação continental.

O princípio de voto unitário por unidade federativa, em todas essas instâncias, permite que países com uma grande população tenham a mesma representatividade que países pequenos. Essa lógica se repete dentro das federações. Por exemplo, na federação do estado do Rio de Janeiro, os quatro clubes de maior representatividade têm pouca voz nas decisões, da qual participam quase uma centena de clubes pequenos. A democracia, nesse caso, é baseada no direito a voto de cada instituição, e não na sua representatividade populacional, e mesmo de jogadores.

Na segunda metade do século XX, a FIFA teve uma explosão de adesões, tornando-se uma entidade mais abrangente do que a Organização das Nações Unidas (ONU) e passou a contar com a participação de muitos países pequenos, até então sem tradição no futebol. Estes países, que representam uma grande força nos processos decisórios dentro da entidade, são também destinatários de boa parte dos lucros de eventos como a Copa do Mundo, pois o principal encaminhamento de recursos da FIFA é para o fomento do futebol em países com menor tradição no esporte.

Não há participação formal de associações de atletas ou de torcedores dentro das instâncias de controle esportivo. Os únicos atores são os clubes e, em alguns casos, patrocinadores e detentores de direito de transmissão, que têm voz garantida em decisões sobre campeonatos, ainda que não estejam representados estatutariamente.

A FIFA tem como um de seus princípios a independência das associações nacionais em relação aos governos locais. A entidade tem o direito de descredenciar associações que sofram intervenção do governo. Este processo pode ser, por exemplo, a intervenção causada pela justiça local, ou qualquer legislação que influa nas competições. A convivência entre o chamado direito desportivo e o direito local é extremamente complexa e vulnerável a abusos.

Este cenário torna o futebol global um campo político extremamente fechado, com uma organização baseada em princípios aparentemente democráticos (com voto de seus integrantes), mas que se revela na prática uma estrutura protegida de influências externas, na qual a participação depende do aval da instância superior, que pode descredenciar associações, e que não permite a participação de entidades que não estejam de acordo com suas diretrizes, já que a única forma de influência é a partir dos clubes na base da pirâmide. O reconhecimento de outras instâncias, com maior participação de associações de jogadores e associações independentes de torcedores, além da tentativa de definir certas instâncias governamentais como legítimas para influir no esporte, são fundamentais para que se possa considerar a organização do futebol como transparente e democrática.

Você acha que não tem pior? Então vote para o futebol como campeão antidemocrático!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>